A organização não governamental (ong) Acubalin (Associação de Cultura Bantu do Litoral Norte), com sede em Caraguatatuba, assinou esta semana na secretaria estadual da cultura, um convênio com o ministério da cultura (minc), por meio do programa cultura viva. Com a assinatura do convênio, a associação foi reconhecida como ponto de cultura e passará a receber recursos do governo federal para a divulgação do projeto nkisi na disápora: raízes religiosas bantu no brasil.
O projeto Nkisi na disápora: raízes religiosas bantu no brasil consiste em um material didático e multimídia, composto por filme documentário e um livro educativo, que tem por objetivo de servir como instrumento de apoio para os professores, que desde a publicação da lei 10.639, as escolas passaram a ser obrigadas a incluir na base curricular o tema história da áfrica e da cultura afro-brasileira.
Com o apoio do ministério da cultura, este projeto vai alcançar todas as secretarias estaduais de educação do brasil (instituições culturais, ongs, universidades e algumas secretarias municipais de educação).
O projeto é de fundamental importância para se compreender as formas de resistência no brasil via religiosidade. Pensar, historicamente, a resistência negra no país, implica necessariamente refletir sobre as religiões afrobrasileiras. No entanto, não apenas a questão racial mas o tema da cultura religiosa ainda são tratados em uma esfera tensionada. Quando não separados como blocos monolíticos. Racismo e intolerância religiosa são faces da mesma moeda. Daí a importância do filme e do livro como materiais de apoio pedagógico e veículos de reflexão
explica a historiadora, Janaína Figueiredo.
Projeto
O filme documentário produzido pela ong acubalin e que será distribuído às escolas, possui 33 minutos de duração. O material é resultado de 18 horas de filmagem e demorou 3 anos até ser finalizado.
As primeiras imagens foram captadas, no segundo semestre de 2004, durante uma viagem feita pelos integrantes da ONG para o centro-sul da áfrica, no antigo reino do Kongo, onde os portugueses estabeleceram os primeiros contatos no século XV.
Durante a viagem, a historiadora Janaína Figueiredo decidiu mostrar o paralelo histórico-cultural entre a cultura bantu e a formação da cultura brasileira, por meio da dança, da comida e dos ritos de candomblé.
O documentário expõe manifestações da cultura bantu em algumas regiões do brasil, como o estado de são paulo, o que o diferencia da maioria dos trabalhos áudios-visuais, que enfatiza a herança sudanesa, sobretudo, nigeriana no nordeste brasileiro.
No litoral norte, por exemplo, as manifestações da cultura bantu estão vivas na dança de congadas, de ilhabela e são sebastião, e do moçambique, em caraguatatuba; nos grupos de capoeira, nos terreiros de candomblé, na fabricação de panelas de barro, no bairro são francisco, nos mitos e lendas de guaecá e boiçucanga, em são sebastião, nos quilombos da caçandoca e camburi, em ubatuba, na dança do jongo, entre outros.
Para mostrar esse paralelo, o filme utiliza como recurso a sabedoria e o conhecimento de líderes africanos e de um líder religioso brasileiro, que se coloca como herdeiro de uma tradição bantu, no litoral norte paulista.
O documentário ainda conta com a participação do professor da universidade de são paulo, kabengele munanga. “o material impresso (o livro) contará com artigos e seqüências didáticas produzidas por pesquisadores do centro de estudos áfrica-brasil (ceab), centro de pesquisa vinculado a acubalin. Além desses, estamos convidando outros colaboradores da usp e puc/sp que farão artigos relacionados à lei 10.639 e temas tratados no filme. O livro é uma extensão do filme. A nossa previsão é que em fins de 2010 as escolas possam já ter esse material”, explica janaína figueiredo.
Pontos de cultura
O ponto de cultura é a ação prioritária do programa cultura viva, do ministério da cultura (minc), com o objetivo de articular e impulsionar as ações que já existem nas comunidades. Atualmente, existem mais de 650 pontos de cultura espalhados pelo país.
Um aspecto comum a todos é a transversalidade da cultura e a gestão compartilhada entre poder público e a comunidade. Para se tornar um ponto de cultura é preciso participar da seleção por meio de edital público.
Quando firmado o convênio com o minc, o ponto de cultura recebe a quantia de r$ 185 mil (cento e oitenta e cinco mil reais), divididos em cinco parcelas semestrais, para investir conforme projeto apresentado.